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Análise: Herança de Sangue, de Ivan Sant’Anna

O povo da cidade de Catalão sempre se caracterizou por marcante identidade própria. […] [O]s catalanos não se sentiam nem goianos nem mineiros. Essa ausência de cordão umbilical era sua marca registrada. Bastava ser de Catalão, e pronto. Gente diferente, como logo percebiam os forasteiros que visitavam o lugar.

 

E, no entanto, não são tão diferentes assim – explico a seguir.

 

A saga de Catalão é marcada por constantes derramamentos de sangue: da exploração de mão de obra indígena no período colonial às discussões banais que terminavam na ponta da faca até o período do Estado Novo, a cidade parecia possuía como um encosto malévolo que espreitava a fim de saltar na primeira oportunidade. Todo cidadão vivia sob o peso de um demiurgo que cobraria sua vida numa loteria à la Shirley Jackson. Mas sua trajetória não é tão diferente do restante da humanidade, algo demonstrado eficazmente no texto de Sant’anna.

 

Recuperando a história do local desde que Catalão era povoado de entreposto para a exploração de minério nas Minas Gerais no século XVIII, Sant’anna propõe uma mini-história da humanidade que se concentra naquele local em específico. Aliás, para demonstrar como isso é uma repetição constante, o autor inicia o relato da história de Catalão pelo seu evento mais chocante: o linchamento de Antero da Costa Carvalho, acusado de matar um fazendeiro local e amigo seu por ganância.

 

A mudança constante do poder sobre a cidade, conforme nos é relatado, transforma uma de suas frases iniciais em irônica:

 

A vila, que nunca teve dono, passou a ter um, senhor de terra, de escravos, da lei e da Justiça.

 

É que ao mesmo tempo em que ela tem dono, ela não o tem – rei morto, rei posto, a única coisa que se mantém no controle é a violência em todos os seus habitantes. Como já disse, a violência funda a cidade, mas também a administra. A hierarquia se faz através dela. A expressão de todo homem morador dali exige sua demonstração.

 

Quando o livro passa a brigas entre famílias poderosas como os Ayres e os Paranhos, o leitor pode achar estar diante de um clichê. Entretanto, Sant’anna corta isso ao não embelezar a narrativa. Sua escrita é episódica, mas contextualizada. Não há heróis nessas histórias, apenas ganância e sede de sangue. Não há star-crossed lovers nem personagens ideais – mesmo o mais próximo de um, Salomão da Paiva, possui problemas de caráter que volta e meia perturbam a paz – quando ela se deixa aparecer – em Catalão. Romancear essas histórias seria refazer o que outros, como Erico Veríssimo, maior nome nacional do romance histórico, já fizeram.

 

O que Sant’anna propõe mesmo em seu texto é uma sequência de narrativas puras, que não “douram a pílula”. É o material bruto das tramas clássicas de um Shakespeare ou de um Capote ou qualquer outro autor do new journalism. Entretanto, se a abordagem de Shakespeare visa uma discussão sócio-política em seu plano de fundo, o autor de Herança de Sangue almeja reconstruir o processo do desenvolvimento da sociedade. Se acima disse que começar pelo evento final reflete a repetição dos eventos em toda sociedade, acrescento que isso marca a constante de uma teoria histórica conhecida: segundo o italiano Giambattista Vico, a história é circular, possuindo três momentos, a saber, as eras dos deuses (a religião), a dos herois (o ser humano como foco) e a dos homens (o esclarecimento). É um caminho ideal à razão, mas Vico não tirava a irrazão, a irracionalidade da balança, o que explicava porque volta e meia as sociedades se autoconsomem mesmo após uma fase de bonança e paz social.

 

Aplicada à Catalão, essas eras respectivas seriam a da Violência Fundacional – e explico mais daqui a pouco -, a dos Coroneis, Jagunços e Pistoleiros e a da Chegada – literal – das Luzes à cidade. A violência que funda o povoado é dispensada aos escravos negros e indígenas, sendo sua exploração para a riqueza do local seu objetivo. Mas como essa exploração pode escassear em um momento – e isso ocorre várias vezes, visto que as minas se esgotam, o transporte por outros locais é mais acessível e o trânsito local decai -, surge a necessidade de um Aquiles ou Abraão ou Josué, alguém que lidere – daí surgirem o coronel Roque Azevedo, o coronel Paranhos, etc. Entretanto, a preservação desse controle ainda se faz pela violência, como o mostram os patriarcas, os juízes, os herois gregos… Mas sociedade alguma prospera se isso continua a ocorrer de forma desordenada – o problema é que Catalão descobre isso muito tarde.

 

O subtítulo do romance, “um faroeste brasileiro”, não dá a toada apenas em termos de espelho do gênero – claro que momentos como os tiroteios lembram Wyatt Earp em OK Corral, a vingança pelo ferimento à prostituta em Os Imperdoáveis -, mas também pelo fato de o gênero western ser o microcosmo da fundação dos Estados Unidos. E como nos filmes do gênero, ocorre de um e outro pistoleiro, de uma e outra ideia estarem ultrapassados, serem desnecessários àquela região que aguarda o desenvolvimento e a paz sonhada que atraiu tantos imigrantes – Gary Cooper saindo da cidade após matar os bandidos que queriam vingança (Matar ou Morrer), John Wayne concordando com o rapaz que joga a arma de lado (O Último Pistoleiro), entre outros. Mas o que sucede no caso de Catalão é justamente algo exposto por René Girard e que já vinha da tradição trágica grega: a ideia do bode expiatório.

 

Em As Eumênides, Atena impede a morte de Orestes para que o povo possa superar a história marcada por sangue – vingança após vingança não faria evoluir aquela sociedade. Mas em Catalão é diferente: o valor de um homem é provado pela sua destreza e coragem no uso de armas, e a vítima-mártir, Antero Carvalho, só era bom mesmo na arte das palavras. O forasteiro que pretendia ficar rico em Catalão é visto como o mandante do assassinato de um amigo seu, Albino Felipe, fazendeiro, por motivos que iriam desde a possível relação adúltera com a esposa de Albino a uma dívida – e ninguém até hoje sabe se foi ele mesmo ou não ou se algum dos motivos tinha sustentação.

 

O linchamento de Antero é o momento que culmina na transformação da cidade. Aqui, Girard apresenta um ponto que espelha o fato:

 

When violence is at the point of threatening the existence of the community, very frequently a bizarre psychosocial mechanism arises: communal violence is all of the sudden projected upon a single individual. Thus, people that were formerly struggling, now unite efforts against someone chosen as a scapegoat. Former enemies now become friends, as they communally participate in the execution of violence against a specified enemy.[1]

 

(Quando a violência chega ao ponto de ameaça a existência da comunidade, muito frequentemente um mecanismo psicossocial bizarro surge: a violência comunal é de toda projetada, repentinamente, sobre um único indivíduo. Assim, pessoas que antes lutavam entre si se unem contra alguém escolhido como bode expiatório. Antigos inimigos se tornam amigos, juntos tomando parte na realização da violência contra um inimigo em específico.)

 

Salomão de Paiva, antes mesmo de Antero, foi um que trouxe as luzes para a cidade – poderoso que era, fez questão de que a eletricidade fosse instalada em todos os postes, para depois quebrar todas as lâmpadas a tiros. Quando foi assassinado, foi visto como um problema a menos, já que atrapalhava a paz local. Antero, por sua vez, não sendo reconhecido como alguém “de Catalão”, vira o bode expiatório ideal que conclama a população a consumi-lo. Nesse ponto, Sant’anna faz um paralelo interessante:

 

Tal como Cristo em Jerusalém, o poeta caía a cada dez ou vinte metros. […] Assim, sofrendo como Jesus, ele passou defronte ao Ginásio Nossa Senhora Mãe de Deus. Nenhuma das freiras saiu lá de dentro para defendê-lo.

 

A mensagem de Caifás de que Jesus pereça para que não sofre para o povo judeu ressoa aqui, mas sem o conforto de uma Verônica ou o alívio de um Simão Cirineu. E se interpretarmos a narrativa judaica à vista dos Evangelhos, confirma-se outro ponto de Girard no martírio de Antero:

 

[…]Girard considers it crucial that this process be unconscious in order to work. The victim must never be recognized as an innocent scapegoat […]; rather, the victim must be thought of as a monstrous creature that transgressed some prohibition and deserved to be punished. In such a manner, the community deceives itself into believing that the victim is the culprit of the communal crisis, and that the elimination of the victim will eventually restore peace.

 

(Girard considera importante que esse processo seja inconsciente para funcionar. A vítima não deve ser reconhecida como um bode expiatório que é inocente, […] mas antes como uma criatura monstruosa que transgrediu alguma proibição/interdito e que merece ser punida. Dessa maneira, a comunidade se auto-engana acreditando que a vítima é a responsável pela crise comunal e que sua eliminação irá, eventualmente, restaurar a paz.)

 

Em um dos momentos esparsos do livro, Sant’anna conta a história de um mascate sírio que é assassinado por puro capricho por um pistoleiro. O que os demais sírios da região fazem? Se armam. A condição de estrangeiro literalmente atrai essa possibilidade de ser presa da violência que se faz por limpeza – quando não da honra, do moral social.

 

A obra episódica de Sant’anna ganha coesão quando o rastro de violência é visto como a própria narrativa. Apesar dos “causos” serem curiosos e interessantes autonomamente, é o evento final que justifica toda a obra. A contextualização temporal para cada episódio faz estes se projetarem posteriormente na leitura da psique social de Catalão. O que o leitor tem em mãos são crônicas que ao serem postas em perspectiva, funcionam como o quadro total da história trágica de uma cidade que espelha o resto do mundo. Quando concebidas a função social da violência e o desencanto com esta no dia seguinte, o leitor percebe, como o autor, que não importa se Antero era mesmo culpado – ele cumpriu sua função:

 

Assassinatos sem motivo sempre foram a própria essência da saga de Catalão. Aliás, não fosse pelo martírio de Antero Carvalho, o antigo pouso fundado pelo Anhanguera teria de se conformar com o estigma de ter uma história só de bandidos, sem mocinhos ou herois.

 

Autor: Ivan Sant’anna (1940-) nasceu no Rio de Janeiro. Escritor, ensaísta e roteirista, trabalhou no Linha Direta e na série Carga Pesada. Tendo experiência anterior em finanças e na aviação, escreveu obras como Mercadores da Noite, Rapina e Caixa-Preta. Seu interesse por história também culminou em livros como Bateau Mouche (sobre um naufrágio que ocorreu em 1988 por desrespeito às normas de segurança) e Em Nome de Sua Majestade (sobre o assassinato de Jean Charles de Menezes pela polícia britânica ao ser confundido com um suspeito de terrorismo).

[1] http://www.iep.utm.edu/girard/#H3

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Resenha: Areia nos Dentes, de Antônio Xerxenesky

“E os mortos voltarão à vida”, exclamou o xamã na noite, e seu grito ecoou e foi ouvido. O céu estava particularmente belo, em tons arroxeados com nuvens esparsas e finas fatiando a lua.

 

Um começo assim faz você ficar curioso para saber o que vem depois, certo? Não é à toa que manuais de escrita e professores de escrita criativa declaram repetidamente que a frase de abertura deve ser muito boa, justamente para servir de isca ao leitor em potencial. E não importa a bagagem: todo leitor quer ser convencido de que o texto por vir vale a pena logo nas primeiras páginas. Claro, isso não envolve apenas a temática, como também o estilo e uma coisa é certa: Xerxenesky tem os dois. O que Xerxenesky não tem aqui, infelizmente, é conteúdo. Prossigamos.

O romance opera em duas narrativas que se intercalam: a. a rivalidade entre as famílias Ramirez e Marlowe na cidade de Mavrak, sendo o gênero dessa história um faroeste; e b. o escritor Juan Ramirez procurar contar essa história em meio a devaneios, sem saber precisar se a história dos Ramirez é mesmo a sua e se a temática zumbi por vir – sim, há zumbis na história – não é uma metáfora para a repetição da tensão familiar que havia então e agora – o autor tem uma relação distante com o filho.

A narrativa A se inicia com Martín Ramírez tentando invadir a casa dos Marlowes a mando do pai, Miguel. Contudo, algo ocorre que faz Martín ser morto, e daí a tensão começa a aumentar, principalmente quando Miguel ordena que o caçula, Juan, assuma a briga. Por conta da rivalidade entre as famílias, um xerife, Thornton, é enviado ao local para dar conta da crise.

Para contar a história de forma dinâmica, Xerxenesky transita entre os gêneros literários, começando na mera prosa romântica…

O interior do saloon proporcionou uma escuridão que trazia um alívio súbito demais da claridade do dia.”

para entrar no roteiro cinematográfico…

MIGUEL RAMÍREZ: Quer saber, deixe a garrafa aqui e dois copos.

[McCoy concorda e entrega o pedido. Miguel serve ambos e começa a beber em silêncio. Maria desce as escadarias, trajando um sóbrio vestido preto.]”

 

para fazer uso de um monólogo/solilóquio mais a frente…

OH, E QUANDO estiver o meu pequeno quartel será preciso transferir todos os cartazes de PROCURA-SE, no momento espraiados pela cidade, pregados ou colados em qualquer casa, não me surpreenderia se houvesse um na igreja[…]

ou mesmo uma intersecção como guia de storyboard beckettiano – vide Film, do dramaturgo irlandês

JUAN

SAMUEL
Será o Samuel ou o Leon aquele que cavalga à minha frente?

Cacete, não acredito que o Juan me viu.

Essa transição frenética de gêneros poderia ser bem utilizada se houvesse algo relativamente interessante a ser contado. O autor tem menos de 140 páginas para contar uma história que serviria de alegoria à situação do narrador Juan Ramírez (a narrativa B), mas o que consegue é apenas um exercício de escrita que não traz nada de relativamente interessante a um leitor despretensioso.

Mas e o leitor pretensioso? Este também fica a ver navios, pois não há novidade nenhuma na disposição do romance que valha o investimento de tempo. Digo isso porque é uma história que faz uso dos mesmos meios já invocados no passado por Leonard Cohen, Don Winslow e James Joyce para contar uma história – a saber, a mudança de estilo. Mesmo quando temos um fluxo de consciência em Henry James, Virginia Woolf ou Katherine Mansfield, sabemos que o estilo da escrita se faz necessário para que se possa dizer algo que, de outro modo, ficaria travado na pena do escritor – como reproduzir a velocidade do pensamento, esse turbilhão ao leitor? Ou como estabelecer a dinâmica entre dois antagonistas sem que o leitor os perca de vista? Como dar voz ao caos polifônico das cenas? Como deixar a cena clara ao leitor sem a interferência subjetiva de um narrador? Para todas essas coisas, escritores procuraram encontrar soluções, e vide que quando Joyce quis contar a história da humanidade na forma da queda da Torre de Babel – a polifonia poliglota – em Finícius Revém, para isso mesmo teve que criar um estilo de escrita que reproduzisse ação e pensamento, oralidade e escrita – o uso do estilo espelha a escolha da narrativa. Infelizmente, tal lição passa ao largo de Areia nos Dentes.

O que resta dos devaneios da Narrativa B é um exercício batido de Eterno Retorno (a repetição de uma situação ad nauseam, como se o tempo fosse cíclico, não linear) como Alegoria para a Crise Familiar entre Juan e seu filho. Ao olhar para a história (mítica) de seus antepassados e tentar chacoalhá-la com os zumbis invocados por Miguel, a trama toma ainda uma visão freudiana quando Juan se vê diante da necessidade de matar o pai, agora também um zumbi:

“’Levanta essa arma, Juan! [,diz Vienna]’

“’Eu não vou matar meu pai […]’, ele gritou.”

 

Particularmente, penso que a poética freudiana há muito está saturada, principalmente graças a uma das inspirações claras do romance de Xerxenesky, Philip Roth. Teria sido interessante reunir Nietzsche e Freud em um mesmo romance, mas a narrativa A falha em casar com a narrativa B por ser ausente de emoção ou resolução satisfatória. A história que se conta, por servir de espelho ao devaneio do narrador, fica fraca por não ser autônoma – a leitura de Juan é a apologética que se apresenta ao leitor, e este não tem como ignorá-la.

Este é o primeiro romance que leio do autor. As expectativas de uma trama que, se não satisfizesse esteticamente (o que fez), poderia satisfazer narrativamente (o que não fez, quando deveria ser justamente o foco), foram solapadas com um desejo de alegoria que não vale a pena no final. Ainda assim, é preciso reconhecer que o autor sabe escrever apesar desse exercício malfadado de gênero confessional com faroeste. Afinal, os estilos podem não ter sido justificados pela narrativa, mas ao menos mostram que Xerxenesky sabe como usá-los.

Autor: Antônio Xerxenesky (1984-) nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. É romancista (F, A Página Assombrada por Fantasmas) e tradutor. Em 2012 foi selecionado pela Revista Granta como um dos 20 melhores autores jovens do Brasil. Também escreve para o Blog do IMS (Instituto Moreira Salles).

Resenha: Quatro Soldados, de Samir Machado de Machado

Uma vez que cabe a mim, teu narrador, a obrigação de narrar, e a ti, meu leitor, a de ler – se assim te apraz -, faz-se mister, por questões de cortesia, que nos apresentemos.

…mas como num romance inglês do século XVIII, não, não será tão fácil que o narrador se apresente.

“Quatro Soldados” trata justamente de quatro soldados. Mas não, eles não são nem Power Rangers nem um quarteto à la Mosqueteiros. O romance se divide em quatro partes que se interseccionam para narrar os eventos que envolvem cada um dos quatro.

O plano de fundo é o século XVIII, em meio aos eventos que levarão às Guerras Guaraníticas, empreendimentos de parte das tribos indígenas com o apoio dos jesuítas para resistir à investida espanhola de demarcar o território e movê-los para outros lugares. Os soldados do Regimento de Dragões de Rio Pardo, em Minas Geraes, acaba sendo envolvido nos eventos justamente por responder aos interesses da coroa portuguesa, que acabara de assinar o Tratado de Madri com a Espanha para definir a divisão do território brasileiro.

A história começa com os eventos fantásticos que levam à formação do jovem soldado Licurgo, abandonado na infância pelo pai. Acolhido pelo oficial Antônio Coluna e crescendo dentro do regimento, é enviado para uma missão: descobrir o que há num forte espanhol aparentemente abandonado.

No caminho, perguntaram ao índio sobre o que sabia do entreposto espanhol. Miguel os olhava de modo desconfiado, como se a pergunta em si fosse absurda. Respondeu: o demônio, é claro. Contou que volta e meia alguém […] tentava chegar ao entreposto atravessando o jardim, e todos sabiam que o encontrariam morto no dia seguinte, sem os pulmões.

A resposta para o mistério, claro, não é óbvia, e os eventos, cada vez mais estranhos, se encontram no limiar de uma narração de um Baudolino ou um Marco Polo. Aliás, as alusões literárias e míticas não faltam, principalmente quando os eventos da torre remetem a um clássico contemporâneo, “O Nome da Rosa”.

Se ao leitor, quando chegar na quarta parte, onde uma referência curiosa de “As Loucas Aventuras de James West” – referência óbvia, mas talvez não a pensada originalmente pelo autor – for uma forçada de barra, é preciso lembrar que a protagonista dessa última parte é justamente um homem erudito que engana a todos com sua devassidão. Quando um padre é encontrado morto, o Andaluz, outro dragão, se lança ao desafio como um Iluminado:

– Ora, senhores! […] Vamos usar dum pouco de raciocínio lógico, vivemos em plena era das luzes. Não vamos confundir a verdade com o plausível, e sim formar nossos princípios com base em observações racionais.

A referência ao Andaluz vai de Sherlock a Guilherme de Baskerville e termina obviamente no Padre Brown. Se o desenvolvimento de Licurgo é de um Adso de Melk que experimenta o mundo para saber de si, Samir já nos entrega uma personagem encantadora de pronto, que na segunda parte havia complementado com Coluna na formação de Lico (risos) – Coluna cede a pragmática, e Andaluz o apetite intelectual.

– Já me disseram para esgotar os clássicos antes de partir para os novos – lembrou [Licurgo]. – Afinal, não já tempo para se ler tudo… ainda mais que os tais romances não distinguem os fatos da ficção, não é o que dizem? Inventando geografias falas e seres que não existem?

– Ah, agora tudo se explica! Quem te meteu um dislate desses na cabeça?! – o Andaluz exaltou-se […]. – Se queres conhecer o passado, busca os clássicos, se queres prever o futuro, vá a um astrólogo… mas para interpretar os dias em que vivemos, só vais encontrar as respostas lendo a ficção do nosso tempo.

A defesa de Andaluz é pertinente hoje mesmo em que eruditos gostam de declarar que “a poesia está morta”, que “tudo já foi escrito”, que “não há nada de novo sobre a terra”, que “tudo é repetição, então tudo é vaidade”. Machado de Machado, como um Pynchon de Terra Brasilis, não aceita isso – por que outro motivo um romance histórico que procura soar de fato como o período em que se passa precisaria ser escrito nos dias de hoje? Porque o questionamento da realidade é sempre presente. Para Sterne, deixar uma página em branco era um modo de confrontar o leitor com a realidade. Para Machado, a voz de um morto despido de limites morais e éticos tinha a mesma intenção – como continua Andaluz:

“Todo homem anseia por ver cousas impossíveis, inimagináveis, não apenas para divertir e entreter seus sentidos, mas para ser deslumbrado ao confrontar o que antes julgada inconcebível.”

E essa incapacidade de cogitar o inconcebível é a matriz do fantástico, do metafórico, mesmo do confessional. Esse viver reprimido é que anula o imaginário humano, possivelmente a própria vontade de viver e experimentar melhor o mundo, como o próprio Coluna irá descobrir ao confrontar o quarto soldado, anônimo, na terceira parte da obra, um exercício escrito que já se prenuncia trágico com a entrada de um coro.

Ao ser incumbido de proteger uma família no caminho para uma cidade, Coluna acaba tendo de confrontar-se com suas próprias ansiedades e com um vilão que realmente parece encarnar o Mal acreditando estar com a razão – uma reflexão sobre o terrorismo, talvez? Não à toa, a primeira referência que pode cruzar a mente do leitor é o assassino albino de “O Código da Vinci”. Como se vê, Machado de Machado consegue fazer essa ponte entre o popular e o erudito, mesmo que possivelmente acidental.

Mas o que importa dizer sobre o texto de Samir Machado de Machado é que ele é fluido. O autor procurar deixar tudo às claras para o leitor, mas sempre fazendo questão de mostrar que fez a lição de casa: a tipografia, a estrutura, a voz do narrador, mesmo a personalidade de cada uma das personagens convence o leitor de que estamos experimentando eventos passíveis de terem acontecido no século XVIII. O exercício da verossimilhança mimética, apesar das meta-referências, é convincente, como num livro de Thomas Pynchon.

Se há algum objetivo visado pelo autor – se é que há um objetivo – é que provavelmente os questionamentos e os vislumbres são uma constante. Não importa o zeitgeist, a curiosidade humana não se dá por satisfeita. E o primeiro passo é explorar o mundo – como Coluna -, querer aprender sobre ele – como Licurgo -, e não querer parar – como o Andaluz. O quarto soldado, que vê tudo como garantido, que deixa que façam dele o que quiserem, ou seja, que não vê sentido em nada e que introjeta aquele que lhe dão, não por acaso é o vilão.

Autor: Samir Machado de Machado (1981-) nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. É um dos fundadores da Não Editora. É responsável pela organização dos contos da Ficção de Polpa, voltado aos pulp fiction.

Resenha: Cidades de Papel, de John Green

Na minha opinião, todo mundo tem seu milagre.

 

No caso de Green, nem chega a ser milagre a publicação deste livro: é a fama mesmo.

 

Desde seu romance de estreia, “Quem é Você, Alasca?”, Green parece estar entretido com a ideia do que significa afinal o termo Sentido para suas protagonistas adolescentes. Considerando que é a partir dessa fase que decisões importantes são tomadas e o bombardeio de informações vem de todos os lados, todos sedutores mas incapazes de dar uma forma definitiva ao mundo, eis um campo promissor para um romance que aborde esse tema nada fácil mesmo para adultos.

 

Como nos demais romances de Green, seguimos uma trajetória em primeira pessoa, desta vez contada por Quentin Jacobsen, ou “Q”, como ele é comumente chamado. De cara sabemos que há mais alguém nessa história – como nos demais romances de Green:

 

[…] milagre foi o seguinte: de todas as casas em todos os condados da Flórida, eu era vizinho de Margo Roth Spiegelman.

 

Margo não é só vizinha de Quentin, como uma antiga melhor amiga que se afastou por motivos de popularidade, etc. Contudo, em algum ponto de sua vida ela decidiu que a artificialidade dessa vida a esgotara:

 

Não é nem consistente o suficiente para ser feito de plástico. É uma cidade de papel.

 

Com isso, resolve chamar Quentin para planejar uma vingança contra tudo o que considera falso e artificial no seu círculo social antes de… desaparecer.

 

A primeira parte estabelece quão apaixonado Quentin está por Margo e quão disposto ele está a fim de segui-la e permanecer com ela. Apesar de ter como pais dois psicólogos, Quentin está disposto a ir contra toda tentativa de visão coesa de mundo para correr esse risco. Curiosamente, existe uma outra personagem que segue por caminho semelhante:

 

Para teu bem os passos teus governo:

Que tu me sigas, eu serei teu guia,

Vou conduzir-te até lugar eterno

Onde ouvirás os gritos de agonia,

Verás velhos espíritos dolentes,

Que esta segunda morte suplicia […].”

(A Divina Comédia – Inferno, de Dante Alighieri – trad. Jorge Wanderley)

 

Tendo Beatriz como alegoria simples para uma iluminação religiosa, Dante embarca numa viagem pelo Inferno, Purgatório e Paraíso para encontrá-la. Para isso, Dante precisa sair de sua zona de conforto (entrar no Inferno), lidar com os sinais que aparentemente levam a essa iluminação (o flagelo dos que passam pelo Purgatório), e, enfim, ver tais sinais reveladores (o Paraíso onde Beatriz revela algo muito maior que o Amor Terreno). É uma semelhança mais devida à estrutura de três ato que, necessariamente, a um conhecimento prévio de Green sobre a estrutura d’A Divina Comédia. Ainda assim, são pontos que se encaixam exceto pelo último, mas prossigamos.

 

Quando chegamos à segunda parte, Quentin procura fazer o possível para entender como as pistas que ela deixou se encaixariam para definir seu paradeiro:

 

– A foto é de Woody Guthrie. Um cantor de folk, 1912 a 1967. Cantava sobre a classe trabalhadora. ‘This Land is Your Land’. Meio comuna. Hum, inspirado em Bob Dylan.

 

(Sobre o Dylan, na verdade seria o contrário. Mas tendo a frase sido dita por Radar, o colega de Quentin que é apaixonado pelo Omnictionary – uma brincadeira com a Wikipedia -, pode até fazer sentido em vista das críticas à confiabilidade desta.)

 

Virei o disco e coloquei para tocar. ‘Walt Whitman’s Niece’ era a primeira música do lado B. E não era ruim, na verdade.

 

(Billy Bragg e a banda Wilco gravaram músicas não finalizadas de Guthrie no álbum Mermaid Avenue.)

 

Era uma primeira edição de Folhas de Relva publicada pela Penguin Classics.

 

(Uma explicação para isso: existem duas edições conhecidas da obra de Whitman, uma que é a Primeira Edição, e outra que é a Edição do Leito de Morte, com poemas adaptados e expandidos.)

 

Todas essas referências envolvem um chamado à consciência, seja por Whitman em contraposição ao ideal de uma vida mecânica – vide um trecho de seu Canção de Mim Mesmo, poema incluído nesse livro: “Resisto a tudo menos minha própria diversidade”. O mesmo se dá com Guthrie e Dylan, com suas músicas de protesto que pediam pelo fim da vida simplista e pela recuperação da Humanidade. Quando Margo faz uso de tais poetas e compositores pra expressar a si, ela atenta contra uma visão social estrita, como sendo aquilo que os outros querem que ela seja para que tudo permaneça como está. Infelizmente, essa é uma lição a qual Green parece não ter captado.

 

Apesar dessa jornada ser gostosa para o leitor, fica difícil simpatizar com personagens que não soam tão profundas como parecem ter sido entendidas. Não há qualquer desenvolvimento em Quentin senão em seu rompante final:

 

– Você estava só zoando com a nossa cara, não é?

 

Com isso, o romance se assemelha a “Quem é Você, Alasca?”: uma explicação conveniente que não faz personagem alguma se desenvolver por si só. Quando as pistas de Margo revelam algo diferente do idealizado por Quentin, sabemos que John Green fez algo formidável: ensinar que sentidos e significados são transitórios, muitas vezes projeções. Contudo, a lição se torna maior que as personagens. Se a cidade é de papel, temos a impressão que eles, na maior parte do tempo, são de plástico, pecinhas de Banco Imobiliário.

 

A leitura final de Margo por Quentin pode até denunciar uma falha da narração em primeira pessoa, a de não conseguir captar uma personagem por inteiro. Mas o acúmulo de informação que ela projeta sobre Quentin só ocorre no fim das contas com um discurso tão didático como o de John Galt em A Revolta de Atlas, de Ayn Rand.

 

Green parece seguir pela trilha de Dante onde este parece querer encontrar Beatriz, mas, no final, ele encontra o que mais queria: a Iluminação do Amor Que Move o Mundo. Bem, esse é um tema teológico demais pra Green, mas, como em seus demais textos, a protagonista encontra, sim, algo significativo. A estrutura básica do protagonista-sabe-tudo-encontra-garota-sabe-tudo está lá, mas falha em emocionar. O leitor se deixa levar mais pelas referências que pelas personagens. Infelizmente, dessa vez, o autor visou alto mas não soube como lidar com o tema além da camada subtextual.

 

Autor:

John Green (1977-) nasceu em Indianapolis, Estados Unidos. Além de escritor, também criou o vlog VlogBrothers com seu irmão, Hank, sendo que os fãs são conhecidos como Nerdfighters. Escreveu também “A Culpa é das Estrelas”, “Quem é Você, Alasca?” e “O Teorema Katherine”.

Resenha: Os Próprios Deuses, de Isaac Asimov

“Tinha acontecido trinta anos antes. Frederick Hallam era um radioquímico, com a tinha ainda fresca em sua tese de doutorado e sem o menor indício de ser alguém capaz de abalar o mundo.”

 

A escrita da História geralmente ocorre com feitos mínimos. Como no caso de O Fim da Eternidade, já resenhado aqui, Asimov mais uma vez resolve tratar desse assunto com Os Próprios Deuses, escrito em 1972. Para o autor, devia parecer-lhe mais próxima a ameaça não só da manipulação ideológica por trás da escrita da História, como da potencial inexistência de uma história que pudesse ser contada, tendo em vista os desdobramentos da Guerra Fria. Ao escolher uma frase do dramaturgo alemão Friedrich Schiller, “contra a estupidez os próprios deuses lutam em vão”, como inspiração para o título de seu romance, Asimov aponta o dedo para a raça humana. Prossigamos.

 

Em algum momento do futuro, por acidente, o radioquímico Frederick Hallam descobre que um tubo de tungstênio está reagindo de forma estranha àquela que a Física Moderna dispõe. Até então um pesquisador de mínima importância, Hallam se torna aclamado por desenvolver, a partir dessa descoberta, uma Bomba de Elétrons que envia e transfere elétrons de uma dimensão à outra – tudo indica e aponta que a manipulação do tungstênio foi feita a partir de uma outra dimensão, com leis físicas diferentes da nossa. Todos veem isso como uma vantagem: não havendo perda de energia, ambas as dimensões poderiam dispor de energia pra todo o sempre, certo? Bem…

 

O romance (não-)começa com Peter Lamont expressando sua preocupação pela outra dimensão, pois acredita que o uso da Bomba pode destruir tanto o mundo deles como o nosso. Mas alguém escuta?

 

[Bronowski disse:] – Se os para-homens são mais inteligentes do que nós, por que estão com a Bomba em funcionamento? Seguramente, eles saberiam antes de nós se houvesse perigo.

– Também pensei nisso – disse Lamont. – Minha suposição é de que eles começaram a Bomba primeiro e, como nós, deram início ao processo pelo aparente bem que proporcionaria, preocupando-se com as consequências mais tarde.

 

Algo de familiar aí? Pense nas usinas nucleares e a manipulação direta dos átomos. Agora, pense que o incidente de Three Mile Island ocorreu dois anos depois. Teremos ainda Chernobyl, Fukushima… Asimov terá pensado na energia nuclear em especial? Talvez, mas quase toda forma de geração de energia causa impactos potencialmente negativos. Nessa sanha de obter um item tido como de extrema necessidade para a Humanidade, esta se cega para o aprendizado do passado e comete os mesmos erros. Por que? Pelo “aparente bem”.

 

Mas o romance vai além, querendo ouvir o outro lado. A segunda parte introduz a sociedade dos para-homens, a dimensão que teria dado origem a tudo que envolve a Bomba de Elétrons. Sua sociedade é estratificada em Paternais, Racionais e Emocionais, que tem características relacionadas, claro, aos nomes que lhe são dados. Essa sociedade vive à base da alimentação de energia pura, sendo que os seres não possuem formas físicas que lembrem humanoides. Os Durões, criaturas mais evoluídas, são os responsáveis por manter essa sociedade coesa.

 

Na segunda parte, o leitor segue os passos de Dua, uma Emocional que passa a ter interesses de Racionais. Isso causa um estresse para a Tríade a qual pertence, já que não estão agindo como os demais membros dessa sociedade. Contudo, Dua começa a desconfiar que há algo de podre nessa regulação da sociedade, pois os Durões são muito firmes com relação à manutenção dessas características.

 

O contraste entre a primeira e a segunda partes soam como críticas aos polos ideológicos da época de Asimov: o capitalismo norte-americano e o comunismo soviético. Enquanto no primeiro os resultados imediatos parecem importar mais que os impactos a longo prazo, no segundo ocorria uma manutenção de classes através de um discurso estratificador, demonstrando que o feudalismo tardio do Império Russo ainda estava presente. A anulação das classes sociais estava longe no segundo caso, enquanto que no primeiro a manutenção dos privilégios de uma dependiam da dissuasão à controvérsias. Em ambos os polos todos são alimentados com a ideia de pensar no bem-estar alheio, apesar de isso demonstrar claramente em ambos os casos que não funciona tão bem quanto parece. E Dua nota isso, principalmente quando Odeen, seu Racional, lhe diz:

 

– O universo inteiro está morrendo. No outro universo, com tão menos e maiores estrelas, a fusão ocorre tão devagar que elas duram milhares e milhões de anos mais que as nossas. É difícil comparar porque pode ser que o tempo transcorra em diferentes velocidades nesses dois universos.

[…]

[Dua diz:] – Mas não acontece nada ruim? Tenho a sensação… de que acontece alguma coisa ruim.

– Bom – disse Odeen -, transferimos matéria de lá para cá e de cá para lá para construir a Bomba de Posítrons, e isso significa que os dois universos se misturaram um pouco. Nossa força nuclear se torna um pouquinho mais fraca e com isso a fusão do nosso sol se retarda ligeiramente e esfria um pouco mais depressa… Mas muito pouco e, de todo modo, não precisamos mais dele.

 

Mas o fato de ser Emocional é que a Intuição faz questionar a Lógica, às vezes apontando para um caminho certo. Algumas descobertas científicas não foram realizadas por acidente? Um acaso fortuito pode ser de bom tom às vezes. E Dua preenche esse buraco, ao inferir que a perda de fusão pode criar um desastre e tentar alertar a outra dimensão. O que nos leva à…

 

…terceira parte, cujo foco é o exílio de um físico adversário de Hallam, Denison. Outrora um garoto-prodígio da Ciência, a campanha de Hallam e seus apoiadores pelo domínio da área resultou em Denison ser desacreditado, apesar de ter tido conhecimento dos esforços de Lamont de demonstrar os problemas por trás da Bomba de Elétrons. Suas pesquisas apontam para um caminho alternativo para a alimentação da Bomba: uma dimensão pré-Big Bang, o que ajudaria a alimentar continuamente ambas as dimensões.

 

Mas o que mais chama a atenção na terceira parte é que ela parece ao leitor uma união das duas primeiras: o exílio de Denison na Lua revela uma nova sociedade que procura se distanciar ao máximo da Terrestre. Eles não se reconhecem como tal e querem sua independência. Mas, ao mesmo tempo, têm realizado feitos tecnológicos incríveis, podendo até mover a posição da Lua para longe da Terra! (Tudo bem, o planeta já está ferrado mesmo, de acordo com as personagens.) Evoluídos, eles querem traçar um caminho para si, tal como Dua, mas não percebem que precisam de uma orientação mínima que seja.

 

[Denison diz:] –  Vocês não irão embora porque não tem sentido fazer isso. […] Há vantagens em ter uma vizinha como a Terra. Você tem a chegada de imigrantes. Intercursos culturais. […] Se você [Neville] arrastar a Lua para longe da Terra, fará com que ela se torne uma prisão para todos. Ela se tornará uma prisão mundial da qual ninguém – não só você – poderá sair, nem mesmo se desejar visitar algum outro modo existente no céu.

 

O isolamento/protecionismo bipolar do mundo de Asimov é refletido nessa vontade da sociedade lunar de ficar distante dos terrestres. Contudo, o Ocidente não foi beneficiado pela naturalização de Asimov, que era russo? O intercâmbio cultural poderia ser o caminho para a Paz Mundial, mas mesmo hoje vemos a dificuldade de algumas sociedades em saírem da sua zona de conforto, se não por atos, mas por discurso.

 

Asimov faz com que essas três partes sirvam tanto como um alerta para o futuro como uma reflexão presente, em alguns aspectos soando quase pós-colonial – afinal, pra que serviria manter o rancor contra os colonizadores (a relação entre a Terra e a Lua)? Ao mesmo tempo, intima os antigos detentores do poder a se abrirem à crítica que vem “de baixo” (Lamont versus Hallam). O resultado derradeiro disso, desse benefício, encontramos no meio, na forma de Estwald, mais um Durão, mostrando que há algo de positivo no embate de forças de oposição desde que se mantenha a mente aberta.

 

Apesar de ser um romance que vale a pena ser lido, com “mensagens” atemporais, há duas considerações negativas que eu preciso fazer: a) não havia necessidade da disposição em capítulos dos flashbacks envolvendo Lamont e Hallam. Não é algo que prejudique a leitura, mas o leitor pode se perguntar pra que isso serviria, afinal. A utilidade? Nenhuma; e b) a segunda parte apresenta uma quebra de ritmo, mas justificada, visto que o leitor é apresentado a toda uma sociedade diferente daquela em que vive. Daí as explicações se tornam volumosas e o leitor pode sentir que “empaca” em alguns pontos. Sugiro que insistam.

 

Mas afinal, quem são esses “deuses”? Asimov era ateu, mas confiava no potencial humano. Os “próprios deuses” são justamente os seres humanos e seu bom senso – ou necessidade dele. Assim como nos argumentos da teodiceia, aquela que trata sobre como um Deus bondoso permite o Mal, o dedo que Asimov aponta pra gente faz a mesma pergunta, pois a Humanidade, ao procurar garantir sua sobrevivência, deve estar disposta a assumir qualquer fardo, sendo que isso deve se estender a todos e até onde for possível, sem ter porque desistir.

 

Autor: Isaac Asimov (1920-1992) nasceu em Petrovich, União Soviética. Naturalizou-se americano em 1928. Além de autor de romances de ficção científica – alguns marcantes do gênero, como a série Fundação, O Fim da Eternidade, a série de romances e contos sobre Robôs e sua necessidade de se manterem dentro das Três Leis da Robótica -, também escreveu obras de referência tanto para as áreas de Ciência e Tecnologia como de Literatura e Crítica Bíblica.

Resenha: O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov

“Andrew Harlan entrou na cápsula. Suas paredes eram perfeitamente redondas e ela se encaixava confortavelmente dentro de um túnel vertical composto de hastes largamente espaçadas entre si, tremeluzindo numa névoa indistinta dois metros acima da cabeça de Harlan. Ele ajustou os controles e deslizou suavemente a alavanca de partida.”

 

A escrita da História é um tema preocupante. Dizem muitos que “a História é escrita por vencedores”, e hoje vemos emergir povos inteiros querendo se fazer ouvir para demonstrar que não foram soterrados por aqueles que dominam os meios de comunicação e a indústria cultural. Talvez isso soe como um papo revolucionário, mas pense em quantas experiências e vozes não foram caladas para não contradizerem um discurso que sabemos que só existe porque alguém faz questão de que ele seja uma verdade incontestável.

 

Desde que o ser humano desenvolveu sua capacidade de narrar histórias, a preocupação que surgiu com isso foi a da veracidade dos fatos. Mas se já é preocupante uma censura tal como a de “1984” – lançado sete anos de “O Fim da Eternidade” (1955) -, imagine alguém que tentasse desfazê-la acreditando que a Realidade deve estar de acordo com uma visão ou percepção coerente com o que se tem por Ideal?

 

Andrew Harlan é um Eterno, alguém que monitora as interferências e necessidades de interferência na história humana. Seu trabalho é basicamente planejar, estudar e modificar, quando necessário, pontos controversos da História que poderiam abalar uma estrutura satisfatória futura. Um exemplo:

 

– No mês passado [- disse Feruque], fiz 572 requerimentos de anticâncer. Dezessete, veja bem, apenas dezessete Mapeamentos de Vida acabaram mostrando Mudanças de Realidade indesejáveis. […] Ou a cura deles tem relevância para a humanidade, ou então está fora.

 

Imagine a possibilidade de erradicar o câncer! Agora, imagine que isso seria impedido por temor – e temor calculado! – de que isso fosse uma ameaça futura. Um grupo de pessoas – Técnicos, Computadores e Eternos – se torna responsável pela manutenção de uma realidade desejável, calculando o quanto a vida de um simples indivíduo pode afetar tudo. Seria isso algo bom, afinal?

 

A Eternidade é formada de uma ligação temporal entre o século em que foi planejada e desenvolvida e o máximo que o homo sapiens alcança – em algum momento o ser humano deve evoluir, darwinismo simples, mas algo que não é tão explorado aqui. Toda a trama da história se passa nessa necessidade de manter Eternidade e Realidade coerentes, mesmo que à custa de sacrifícios… até aparecer algo que pode modificar tudo.

 

Na forma da jovem Tempista – alguém que vive na Realidade extra-Eternidade, mas que conhece a forma como tudo é disposto – Noÿs Lambert, um fato complicador aparece diante de Harlan, até então alguém frio e calculista: o Amor. Mas o que poderia complicar tudo isso? Além do fato de que ela não deve existir na nova Realidade? E de que ele está prestes a criar um paradoxo que gera a Eternidade? E assim a trama de Asimov passa da tecnicidade para um estudo sobre personalidade, sobre quão válida é a vida de cada ser humano:

 

– Aí, você lê os dados biográficos e todo homem é um herói. Todo homem é uma perda irreparável ao seu mundo.

 

Não se está apenas mexendo com o Livre Arbítrio, como também com a maravilha da experiência humana. Ao dizer que “todo homem é um herói”, Feruque retoma um ponto já explorado por Homero e por Joyce: seu(s) Ulisses(es) são seres humanos comuns cujo propósito está justamente na sua existência. A vida humana é uma conquista, e ir até o fim dela é algo digno de ser rememorado, é marcante para um ou para vários. É assim que ocorre com a influência de grandes homens: tivessem eles nunca existido, podemos hoje pensar em seu impacto? Poderíamos garantir que ele seria positivo ou negativo? Ao tentar preservar a Humanidade de um potencial negativo, não estariam eles anulando a experiência alheia, a necessidade do aprendizado?

 

Asimov promove com a Humanidade que sofre essas interferências o mesmo efeito dos Ministérios de Orwell: a anulação da Experiência pode tornar o ser humano algo oco. A necessidade de manter a atenção constante impede que ele se desenvolva, que ele evolua pelo menos em pensamento.

 

Conseque entender que, ao afastar as armadilhas e vicissitudes que perseguem o homem, a Eternidade não deixa que ele encontre suas próprias soluções, boas e amargas, soluções reais que chegam quando a dificuldade é enfrentada, não evitada?

 

E que é a História se não esse relato longo de triunfos e desastres que todos aprendemos que devemos visar ou evitar? Será que está dentro do Bem Coletivo anular o Indivíduo quando necessário? Diferente da forma como alguns veem o gênero, a Ficção Científica promove essa forma de questionamento através de suas metáforas que tomam formas prováveis, embora fantásticas. O questionamento que Asimov cria no leitor talvez provoque mais impacto que num romance com tons realistas porque não é algo que o leitor espera. A mimese dos elementos e as reflexões sobre a contemporaneidade são coisas sempre presentes, mas num universo com potencial positivo e benigno? (Ou assim pensamos ou queremos acreditar que seja.) E não faltarão apologistas de tal corrente de pensamento, até que eles mergulhem no desenvolvimento da protagonista: de alguém calculista para alguém vivo.

 

Autor: Isaac Asimov (1920-1992) nasceu em Petrovich, União Soviética. Naturalizou-se americano em 1928. Além de autor de romances de ficção científica – alguns marcantes do gênero, como a série Fundação, Os Próprios Deuses, a série de romances e contos sobre Robôs e sua necessidade de se manterem dentro das Três Leis da Robótica -, também escreveu obras de referência tanto para as áreas de Ciência e Tecnologia como de Literatura e Crítica Bíblica.

Resenha: Ubik, de Philip K. Dick

“Amigos, é hora da limpeza. Estamos com descontos em todos os nossos Ubiks elétricos e silenciosos, poupando-lhes muito dinheiro. Sim, entramos em liquidação total. E lembrem-se: cada Ubik do nosso lote foi usado apenas conforme as instruções.”

 

(De cara, uma explicação: o termo “ubik” só pode ser derivado de “ubíquo”, adjetivo que designa aquilo que é onipresente. Com essa explicação em mente, prossigamos.)

 

Uma tendência presente nos romances de Dick é a de sempre questionar ou transgredir aquilo que o leitor comum possa considerar como sendo a realidade. Ora a transgressão se dá no nível da narrativa (“O Homem do Castelo Alto” lembra romances como “Se Um Viajante numa Noite de Inverno…”, de Calvino) ou da natureza das personagens (“Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?”, “O Homem Duplo”). A incerteza se torna um labirinto que prende o leitor à obra, visto que o deslumbramento, o choque, a mística são situações que provocam a curiosidade de quem vivencia. Com esse tema sendo usado continuamente, alguns poderiam pensar que há apenas uma repetição que acaba esgotando o leitor, soando previsível posteriormente. Ledo engano.

 

“Ubik” é um desses exemplos de obras que questionam a realidade. O romance narra os desdobramentos de uma missão envolvendo um grupo de antipsis, pessoas com poderes parapsicológicos que podem impedir a atuação de psis, estes também com poderes parapsicológicos, mas tratados no romance como antagonistas pois fazem uso deliberado de seus poderes para cometer crimes. O grupo, liderado por Joe Chip, um ser humano padrão, sem poderes, é contratado por uma empresa para impedir a atuação em massa de um grupo de psis… até ocorrer um atentado à bomba.

 

Dentre os membros do grupo está uma recém-chegada, Pat Conley, que pode alterar o passado sem que se note claramente como isso é feito. O jogo, então, começa com o leitor tendo indicado diante de si uma participante de impacto, mas que faz você questionar porque…

 

Wendy Wright disse:

– Peça a Pat qualquer-que-seja-o-nome para usar seus poderes. […] Por favor, Joe.

[…]

– Você não a entende, nem seu talento – disse Joe.

 

A comoção decorrida da morte de seu chefe, Glen Runciter, cria um ambiente hostil que gera uma série de perguntas, que incluem, “não poderiam ter previsto isso?”, “não poderiam ter suspeitado disso?”, “não poderiam ter corrigido isso?” E o terror surge ao notarmos que, assim como na vida real, não haveriam respostas suficientes e nem aquelas esperadas para tais perguntas. Afinal, ora a realidade se assemelha a uma teoria calvinista, para na outra soar tão caótica que faz você se perguntar como tudo se mantém (aparentemente) encaixado. Mas a morte de Runciter provoca também um efeito curioso:

 

CIGARROS VELHOS

CATÁLOGO DESATUALIZADO

DINHEIRO OBSOLETO

COMIDA APODRECIDA

ANÚNCIO NOS FÓSFOROS

 

Com algo assim poderíamos chegar a uma conclusão óbvia: em vez de Runciter, foram eles que morreram. Mas… como todo o mundo continua sendo mantido dentro do universo vivido pelo grupo se apenas eles morreram? Claro que essa é uma pergunta que só poderia ser feita pensando, automaticamente, dentro do escopo judaico-cristão que dispõe sobre a Vida Após a Morte. Mas estando mortos, por que a necessidade de anúncios recorrentes de Ubik, um produto que, de repente, ganha uma relevância tamanha? Talvez o fato de Glen se comunicar com sua esposa em estase pós-morte – uma técnica desenvolvida para se comunicar com as almas/espíritos/consciência dos mortos antes que se desprendam do corpo – tenha algo a ver com isso, mas não é como se a realidade ante-morte holística indicasse uma sobreposição de realidades. A coisa é mais complexa do que parece e Dick não se propõe a dar respostas fáceis.

 

Chip e os sobreviventes – que vão morrendo aos poucos, de forma suspeita – tentam garantir que Runciter sobreviva para que ele possa comandar a empresa no Pós-Morte, mas também se veem obrigados a entender o que ocorre com cada um deles, do que é composto esse mundo em que habitam agora – e, principalmente, porque Joe é quem tem de tentar manter e compreender a necessidade de coesão da realidade ao seu redor. Numa leitura simbólica de seu nome, “Joe”, apenas mais um “Zé” da vida, poderia representar o ser humano que encara os furos da práxis, quando o que antes parecia ser sólido começa a se desmanchar – frase presente n’O Manifesto Comunista, de Marx e Engels.

 

Se formos pensar na percepção de realidade também, conforme Chip e os outros voltam no tempo dentro desse universo que habitam, sem saber o que realmente vivenciam, é bom lembrarmos que mesmo a noção cristã de camadas sobrepostas em que o ser humano, após sua morte, habita em consequência de seus atos em vida (Ceu-Purgatório-Inferno) deriva bastante de uma noção teológica dantiana que passou pra cultura popular, as amarras que mantém o mínimo de sentido começam a correr o risco de serem cortadas ou de se afrouxarem com o tempo. Se na narrativa a realidade é uma crise de sobreposição onde não se pode apreender uma certeza, que dirá da realidade do autor e de seus leitores?

 

O incômodo persiste mesmo quando Joe encontra suas respostas porque… nós não encontramos as nossas. O que Joe encontra não nos satisfaz ao lermos o que segue na última página. Como a mística dos santos, ninguém consegue vivenciar uma da mesma maneira. Joe é nosso guia assim como Virgílio foi para Dante, mas cada um deles seguiu em frente ao obter o que queria. Ao leitor, resta apenas o baque da impossibilidade de usar o mesmo método de Dick para obter o resultado desejado – eis o ponto em que a Vida não consegue imitar a Arte, a despeito de tentarmos dissolver o fantástico ou anular as metáforas.

 

Autor: Philip K. Dick (1928-1982) nasceu em Santa Ana, Estados Unidos. Conhecido como um dos maiores nomes da ficção científica, escreveu obras que tratavam de temas como distopias, experiências paranormais, senso de realidade, liberdade de expressão, tudo isso fazendo uso de um contexto onde a tecnologia propiciava tanto o domínio como a possível liberdade do indivíduo. Entre suas obras mais famosas, além das já citadas no texto, temos “Valis”, “Fluam Minhas Lágrimas, Disse o Policial”, “Os Três Estigmas de Palmer Eldritch” (todas editadas no Brasil pela Aleph), “Vozes na Rua” (editada pela Rocco), bem como vários contos, que deram origem a adaptações cinematográficas como “Os Agentes do Destino” (dirigido por George Nolfi), “O Vingador do Futuro” (tanto o filme de Paul Verhoeven como o remake de Len Wiseman), “A Nova Lei” (dirigido por Steven Spielberg), entre outros.